A História do Tai Chi Chuan

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A história do Tai Chi Chuan, assim como todas as Artes Tradicionais Chinesas, tem uma versão lendária e uma versão histórica propriamente dita.
A parte lendária atribui a criação do Tai Chi Chuan à Chang San Feng, um monge taoista que viveu aproximadamente entre 1127 e 1279, nas Montanhas Wudang.
Chang San Feng

Três versões da criação do Tai Chi Chuan por Chang San Feng são aceitas:o

A primeira é que teria presenciado a luta de uma serpente com um pássaro, contemplando neste embate a expressão viva da teoria Yin/Yang intercalando-se, “harmoniosamente”, numa situação de combate.


A segunda versão seria de que Chang San Feng, durante um sonho, teria recebido este método de combate do Imperador lendário da Guerra Zhen Wu, ou WuDi, e que, no dia seguinte ao despertar, ele pôde enfrentar mais de uma centena de bandidos.



A terceira, de que ele, meditando sobre a montanha, percebe nas nuvens um padrão de movimento que expressa perfeitamente o Yin e Yang do Tai Ji. 



TAI JI é um conceito filosófico muito anterior à criação do Tai Ji Quan. A aplicação deste conceito a uma arte de movimentação marcial chama-se TAI JI QUAN.
TAI JI significa literalmente equilíbrio entre extremos, ou o supremo equilíbrio dinâmico entre extremos (o eixo em torno do qual tudo se movimenta). Este conceito é aplicado em qualquer segmento da cultura chinesa, da culinária à medicina, arquitetura, agricultura, etc.

TAI JI é representado pelo diagrama Taiji tu.
A arte de movimentação do Tai Ji Quan é baseada neste padrão de alternância entre Yin e Yang.





A versão histórica:



CHEN WANTING (1600-1680) era o chefe do clã dos Chen do vilarejo Chenjiagou em Henan, e veio tornar-se comandante da milícia que defendia o distrito Wen Xian.

Embora se saiba que os antepassados de Chen Wanting já praticassem artes marciais, os registros levam a crer que foi Chen Wanting quem organizou o sistema que hoje é conhecido como Tai Ji Quan.
      
Chen Wanting

Unindo a Filosofia Taoísta, os conhecimentos de Medicina que a Família Chen possuía por sua tradição em fitoterapia, e as Artes Marciais, Chen Wanting cria um sistema de combate que foi testado através dos séculos, e se aperfeiçoou por cada uma das gerações dos Chen até os dias de hoje, sendo em cada geração, um representante escolhido pelos anciões para levar adiante a tradição do Tai Ji Quan.
O atual representante desta tradição familiar é Chen Xiao Wang.

Chen Xiao Wang
Cada geração, além do representante, sempre contou com vários outros expoentes extraordinários criando o respeito que o Tai Ji Quan tem hoje em dia no panteon das Artes Marciais Chinesas.
Atualmente o estilo CHEN tem três formas “clássicas” de mãos, subdivididas cada uma em duas partes: uma longa e de execução mais lenta chamada Yilu (primeira rotina), e outra conhecida como Erlu (segunda rotina) ou PAO CHUÍ - punhos de canhão, normalmente curta e de execução rápida.


A LAO JIA data do final do sec. XVIII; começo do XIX, quando CHEN CHANG XING, Líder da 14a geração, vê a necessidade de resumir várias formas que formavam o repertório de treinamento da família Chen, e eram trabalhadas isoladamente, em um só sistema de sequências contínuas.

Chen Chang Xing

A Lao Jia Yi Lu é a forma que originou o estilo YANG, de YANG LUCHAN e, através deste, o estilo Yang de YANG CHENG FU e o estilo WU de WU JIAN QUAN.A Lao Jia incluía duas formas de mãos, conhecidas como Yi Lu e Er Lu, armas (sabre, espada, bastão, lança, guandao, maças duplas, espada dupla, sabre duplo) 5 estilos de tuishou e formas combinadas de lança contra sabre, bastão contra bastão, etc. Todo este sistema é praticado até hoje no Vilarejo Chen. A Lao Jia Yi Lu, considerada a obra prima e pedra fundamental do sistema é uma forma limpa, com todas as características essenciais do Tai Ji, dando ênfase, principalmente, à energia espiralada (CHAN SI JIN), aos movimentos lentos e sem tensões.

A LAO JIA é a forma mais importante segundo o MESTRE CHEN XIAO WANG.

A LAO JIA ER LU ou PAO CHUÍ da LAO JIA também foi criada por Chen Chang Xing. Constituindo-se 80% em FA JING, energia da explosão, e 20% em Chan Si Jing energia espiral, é uma forma dinamicamente forte, que tradicionalmente só foi transmitida no estilo Chen.

A XIAO JIA, segunda forma tradicional a ser desenvolvida a partir da Lao Jia, foi criada no começo do século XIX por CHEN YOU BENG e, por ter movimentos mais compactos, foi denominada de Pequena Forma ou XIAO JIA. Esta é a origem dos estilos WU - HAO de Wu Yu Shian, e do estilo SUN de Sun Lutang. 

A XIN JIA é a terceira, e a mais recente forma tradicional do estilo CHEN. Criada por CHEN FAKE, 17a geração, conhecido como o maior mestre do século XX, o chefe do clã CHEN a ir para Pequim no intuito de divulgar o Taijiquan estilo Chen.



Ao criar a XinJia, CHEN FAKE, avô de CHEN XIAO WANG, aumentou a incidência de movimentos  espirais e emissões às posturas da Lao Jia  dando ênfase à aplicação dos “QIN NA” ou chaves de torção.

A XIN JIA e a PAO CHUÍ da XIN JIA foram reunidas para criar a forma de competição de 56 movimentos, que foi criada pelo governo chinês, é a forma mais divulgada deste estilo, junto com as formas de 38 e 19 posturas, estas duas criadas por CHEN XIAO WANG.

Até o séc. XIX, o Tai Ji Quan só era ensinado entre as pessoas da Família Chen, quando então, CHEN CHANG XING (1771 – 1853) passa este ensinamento para Yang Luchan (1799 – 1872).


Yang Luchan cria um novo estilo que, hoje em dia, é o mais praticado no mundo. Muito provavelmente o Tai Ji estaria escondido no vilarejo Chen até os dias de hoje, não fosse Chen Chang Xing abrir esta exceção.


Yang Luchan vai então para Pequim onde é convidado a ensinar na corte dos Qin. Aceita e vence vários desafios. Torna-se famoso, como “Yang, o Imbatível!”.

No final do império e começo da república na China, o neto de Yang Luchan, Yang Cheng fu terá um papel de grande importância para o Taijiquan.


Após a queda do império, 1911, a China teve sua moral derrubada pelas subsequentes humilhações sofridas desde a guerra do ópio, e depois com a derrota dos “boxers” face ao poderio das armas de fogo ocidentais, além da corrupção interna do fim do império. Os chineses eram chamados de “cães doentes da Ásia”.

Nesse começo do séc. XX as artes marciais, antes motivo de orgulho, eram olhadas com desmerecimento. Surge então um esforço de modernização, e a China copia o modelo do Japão com o Judô; que tinha se transformado em esporte, assim como exercício de educação física. As artes marciais chinesas são então incentivadas pelo governo chinês como exercício para a saúde.

Um grupo de mestres de Tai Ji, ao qual Yang Chen Fu pertencia, percebe que, para a saúde, nada melhor no mundo das artes marciais que o Tai Ji Quan.  Yang Cheng Fu tira gradualmente todos os movimentos mais bruscos e explosivos do Taijiquan do estilo Chen original e, mantendo o conceito e a praticidade das aplicações marciais, cria um estilo que, suave, simples e eficaz, pode ser praticado por qualquer pessoa com comprovados valores terapêuticos.

Isso permitiu ao Taijiquan deixar de ser uma arte marcial praticada por uma pequena elite de artistas marciais e oficiais manchus, e passar a ser um exercício das massas, como vem se tornando desde então. Na primeira metade do século XX, graças a Yang Chengfu do estilo Yang, Wu Jianquang do estilo Wu, e Sun Lutang do estilo Sun, o Tai Chi é ensinado por toda a China e, logo após, através dos imigrantes chineses, para os Estados Unidos, Europa, América do Sul, Austrália e Sudeste Asiático.

O estilo Yang tradicional é composto de uma forma de mãos, uma forma de sabre, uma forma de espada, uma forma de bastão e uma forma de lança, Tuishou, Talu e Sanshou. No entanto, várias outras práticas e formas foram adicionadas por outros subestilos que também se denominam “Estilo Yang“.

O estilo YANG alcança uma popularidade enorme em toda a China, especialmente em Beijing, Shangai e Hangzhou devido às viagens de Yang Cheng Fu por estas cidades. Do estilo Yang são derivados os estilos Wu-Hao, Wu e Sun, que serão temas de outros artigos.Yang Chen Fu teve no seu sobrinho Fu Zhong Wen um dos seus principais discípulos.


Fu Zhong Wen foi morar na casa escola de Yang Chen Fu quando tinha 9 anos. Praticou TaiJi até a sua morte, aos 94 anos. Acompanhou Yang Cheng Fu pela China, em suas viagens para divulgação do Taijiquan e, muitas vezes, representava seu mestre aceitando desafios de praticantes de outras artes marciais que vinham testar a eficácia do Taijiquan.


Fu Zhong Wen fundou a Associação Yong Nian em 1944, uma das principais escolas do estilo Yang tradicional. Enquanto o estilo Yang ganha cada vez mais destaque em Beijing, o estilo Chen continuava a ser praticado na região de Henan.No final dos anos 20, CHEN ZAO PI (1893-1972), mestre do clã Chen, 18ª. geração, vai trabalhar numa farmácia dos Chen em Beijing, e, como o estilo Yang já era conhecido, ele anuncia num jornal uma demonstração do estilo Chen na Porta do Sul, e conforme a tradição da época, aceita todos os desafios. Durante 17 dias da sua exibição não sofreu nenhuma derrota. Fez parte da resistência e chegou a ser promovido Comandante de Operações na guerra sino-japonesa (1937-1945).

Chen Zao Pi era um ótimo mestre de armas e tinha na memória toda a história da família Chen. Junto com Chen Fake, foi o melhor artista marcial da família Chen na sua época. Em 1930 foi convidado a ensinar no famoso “Instituto de Guoshu de Nanjing”. Guoshu ou arte nacional é sinônima de arte marcial, denominada hoje como Wushu.Neste instituto promovido pela prefeitura de Nanjing, ensinaram famosos mestres de artes externas e internas como, Yang Cheng Fu, Wu Jian Quan, Sun Lu Tang e Fu Zheng Sung.



CHEN FAKE (1887-1957), 17ª. Geração, avô paterno de Chen Xiao Wang foi o principal artista marcial de Tai Ji Quan dos últimos tempos, com várias testemunhas ainda vivas para confirmar os seus feitos fantásticos. Chefe do Clã marcial dos Chen da 17ª geração.
Chen Fake vai ensinar em Pequim a convite de seu sobrinho Chen Zao Pi, e abre uma escola por onde passam grandes mestres dos anos 40 e 50.

Chen Fake cria uma nova forma que se chamada Xin Jia que destaca as principais características do estilo Chen, a energia espiralada  (Chan Si Gong) e a energia da explosão (Fa Jing). Esta forma se divulgou por seu filho Chen Zhao Kui, em Beijing e Shangai, e por isso mesmo é a mais conhecida do estilo Chen.  Hoje em dia a tradição da Xin Jia é transmitida principalmente pelos quatro tigres de Chenjiagou, assim como por Chen Yu  filho de Chen Zhaokui.





















Chen Zhao Pi retorna ao vilarejo Chen nos anos 50 e continua a tradição da velha forma (Lao Jia). A ele é atribuído o renascimento do sistema da Lao Jia, assim como a revisão da forma de sabre Taiji à qual acrescentou movimentos a partir de suas experiências, tanto pedagógicas relativas ao Instituto de Guoshu, como marcialmente  eficazes, enquanto homem de combate Chen Zhaopi também criará a forma de espada dupla.

Devemos todos a Chen Zhao Pi  a sobrevivência da Lao Jia até os dias de hoje.  Seus principais alunos foram Chen Xiao Wang, Chen Zheng Lei, Wang Xian e Zhu Tian Cai, conhecidos como os quatro Gin Gang ou guardiões, ou Quatro Tigres de Chenjiagou.

O estilo Chen vive através desses mestres uma nova era para o Tai Ji Quan, por que traz em si a raiz de quatro séculos de uma arte sofisticadíssima tanto na sua bioenergética em acordo com sua filosofia, como na sua eficácia marcial.


Chen Zheng Lei , Chen Xiao Wang, Zhu Tian Cai  e Wang Xian

ANOS 50
No começo do comunismo, Mao Tsé Tung estimulou a prática dos exercícios chineses, assim como o Tai Ji Quan. Isso levou a criação da primeira das formas simplificadas ou formas estandardizadas, conhecida como Forma de Pequim ou 24 Posturas.
Formas são encadeamentos de movimentos codificados e representam a essência do conhecimento de gerações de mestres de um estilo ou família. Constituem a memória viva do Tai Ji Quan.
Existem três tipos de formas:
1) Tradicionais: são transmitidas de pai para filho ou mestre-discípulo. São as mais antigas e originais, que definem os estilos Chen, Yang, Wu, Hao e Sun.
2)  Simplificadas: foram criadas a partir dos anos 50 para facilitar e divulgar o Tai Ji em grande escala.
[  24 ou Forma Simplificada de Pequim: baseada no estilo Yang.
[  48 ou Forma Combinada: baseada nos principais estilos: Yang, Chen, Wu e Sun.
[  32 Espada: baseada na Espada estilo Yang.
3) Competição: foram criadas para apresentações e competições.
[  Chen 56 Posturas
[  Yang 40 Posturas
[  Wu 45 Posturas
[  Sun 73 Posturas

Estas formas duram em média, 6 minutos para serem executadas. Com exceção das formas de 24 e espada 32, todas as outras formas de taijiquan standard foram criadas após a revolução cultural.

Com as formas de competição o Tai Ji Quan, que já gozava de popularidade, tem um novo impulso de divulgação. Foi então criada a Forma Olímpica que serve de parâmetro para os grandes campeões. Ela é formada de 42 posturas alternando o simples e o difícil, combinando os estilos Yang, Chen, Wu e Sun.

O interesse do Ocidente a partir dos anos 60 se volta às Artes Orientais, principalmente as que envolviam uma harmonia maior do Homem à Natureza: Yoga, Tai Ji, Acupuntura, Shiatsu, Meditação, etc.
No Brasil o Tai Ji Quan chega entre os anos 60/70 através de quatro mestres:




1. Hu Sin Shan



Hu Sin Shan ensinava no Rio de Janeiro a variação mais aproximada do estilo Yang tradicional , assim como o Xin Yi Quan, Ba Gua Zhang, Tan Tui e Shaolin Quan, dando uma visão ampla das artes marciais chinesas que influenciam uma grande parte dos atuais professores cariocas de Tai Ji Quan.

2. Wu Chao-Hsiang




Wu Chao-Hsiang ensinou, no Rio de Janeiro, Xin-Yi Quan e uma variação do estilo Yang; o seu filho Wu Jyh Cheng criou outra variação do Taijiquan Yang diferente da do seu pai, e fundou a Sociedade Taoísta do Brasil.



3. Chan Kwok Wai 



Chan Kwok Wai é o principal aluno Yan Shangwu (Yin Sheung Mo) que foi o único aluno do famoso Gu Ruzang mestre do estilo do clã Yan de  Shandong. Este estilo, quando Gu se muda para o sul da China, será conhecido como Shaolin do norte. Chan Kwok Wei ensina Shaolin do Norte assim como Taijiquan, Ba Guazhang e Hsing Yiquan, sendo o pioneiro e um dos mais influentes mestres de São Paulo.



4. Liu Pai Lin

Estes mestres foram tradicionalistas, portanto a base do Tai Ji Quan praticado no Brasil é boa. Até meados dos anos 90 esses mestres eram o referencial do Taijiquan no Brasil, quando então se iniciou a promoção dos primeiros workshops internacionais, trazendo mestres reconhecidos na China e no mundo, inclusive os atuais representantes oficiais dos estilos Chen e Yang. O Taiji Pailin como é conhecido se tornou um estilo próprio e influenciou vários professores por todo Brasil.

Liu Pai Lin é outro pioneiro não só no Tai Ji Quan como na Medicina Tradicional Chinesa. Seu estilo de Taijiquan de origem taoista é amplamente divulgado em São Paulo, assim como em Brasília, é continuado por seu filho, Liu Chi Min; é um estilo de elegância plástica e poesia com grande ênfase no Qigong.


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